Os meios de contraste e a amamentação

“Já foram descritos raros e leves efeitos adversos no trato gastrointestinal do lactente, devido à ingestão do contraste. Entretanto, os riscos de reações adversas, excetuando as gastrointestinais, são teóricos e não reportados nesses casos”

O conhecimento sobre os meios de contraste está cada vez mais se ampliando, principalmente decorrente do seu uso frequente na prática clínica. Um grupo particular de pacientes que muitas vezes gera controvérsia na rotina de um serviço de Diagnóstico por Imagem é o das lactantes, pois já é bem estabelecido que existe a excreção do contraste através do leite materno e que parte dele é absorvido pelo trato gastrointestinal (TGI) do lactente1-5.

Diante disso, na prática radiológica e clínica, surgem diversas dúvidas em relação a esse assunto. Baseando-se em dados da literatura, algumas questões serão esclarecidas a seguir.

Existe diferença nos mecanismos de excreção e absorção entre os contrastes iodado e paramagnético?
Não, os dois tipos de agentes de contrastes têm mecanismos semelhantes, apresentando taxas de excreção e absorção não muito divergentes1,2.

Qual a porcentagem do contraste iodado administrado por via intravenosa na lactante que é absorvida pelo TGI do lactente?
Menos de 1% da dose intravenosa materna administrada é excretada através do leite materno e menos de 1% da dose ingerida pelo lactente é absorvida pelo seu trato gastrointestinal, totalizando uma absorção de menos de 0,01% do contraste administrado na mãe1.

E em relação ao agente paramagnético?
Sua excreção no leite materno é de cerca de 0,04% da dose intravenosa administrada na mãe, sendo absorvi do pelo TGI 0,8% desta quantia, ou seja, apenas 0,0004% da dose intravenosa administrada na lactante 2,3 .

A dose absorvida é semelhante à máxima permitida se fosse realizada a administração intravenosa no lactente?
Não, a quantidade presumivelmente absorvida pelo TGI do lactente é muito menor que a dose intravenosa máxima permitida, representando menos de 1%1 e cerca de 0,25%2,4 da dose recomendada na criança que irá realizar um exame contrastado, em relação aos contrastes iodado e paramagnético, respectivamente.

Há risco de reações adversas durante a amamentação?
Já foram descritos raros e leves efeitos adversos no trato gastrointestinal do lactente, devido à ingestão do contraste 5 . Entretanto, os riscos de reações adversas, excetuando as gastrointestinais, são teóricos e não reportados nesses casos3,5 . Apesar de não existirem casos relatados na literatura pesquisada, uma das principais preocupações é da eventual ocorrência de fibrose nefrogênica sistêmica no lactente com o uso do agente paramagnético, devido à imaturidade da função renal do neonato.

As únicas reações adversas bem reportadas são as relacionadas à injeção direta intravenosa, com incidência muito baixa, variando de 0,2%-0,7% (reações semelhantes a alergia) para os contrastes iodados não-iônicos hipo-osmolares 1 e de 0,004%-0,7% (reações semelhantes a alergia) para os paramagnéticos6,7.

Os potenciais riscos do uso do contraste superam os riscos de reações adversas relacionados a outros procedimentos?
Geralmente não. A literatura mostra que os riscos associados ao uso intravenoso do contraste são semelhantes ou até menores que procedimentos comumente realizados pela população em geral. Em relação à colonoscopia, a taxa de morte relacionada ao procedimento é de 0,03%-0,7%8. Na broncoscopia flexível, as complicações são diversas, variando de hipoxemia (0,2-21%), arritmia (1-10%), pneumotórax/pneumomediastino (1-6%) e morte (0,1- 0,2%)9.

É segura a utilização do contraste durante a amamentação?
De acordo com os dados aqui mencionados e através da análise da literatura recente, deduz-se que é seguro para o lactente o uso do contraste intravenoso na mãe. Se por um lado não existem evidências científicas da ausência de risco, por outro lado não há relatos de com plicações médias ou graves. Em relação à interrupção da amamenta ção, existem duas vertentes que não chegam a ser conflitantes. O manual do ACR1 estabelece que não é necessária a suspensão da amamentação. Já o manual da ESUR 10 cita a recomendação da EMA (Agência Europeia de Medicamentos): se for utilizado meio de contraste de alto risco, a amamentação deve ser suspensa por pelo menos 24 horas após a injeção; se for utilizado meio de contraste de baixo ou médio risco, a decisão da suspensão deve ser tomada em conjunto pela mãe e seu médico. A Sociedade Italiana de Radiologia3 afirma que não há necessidade de descontinuar a amamentação, com a ressalva de que deve ser evitado o uso de meios de contraste de alto risco de fibrose nefrogênica sistêmica (gadopentetate dimeglumine, gadodiamide, gadoversetamide) em mães lactantes.

Dra. Bruna Garbugio Dutra é Fellow em Neurorradiologia na Santa Casa de Misericórdia, São Paulo.

*Com colaboração dos Drs. Claudia Castilho, Fernando Porala, Marcelo Amaral, Marco Lauzi, Pablo Rydz, Raquel Macedo e Tufik Bauab Jr. (Grupo de Estudo dos Meios de Contraste – SPR).

Fonte: Jornal da Imagem, Edição 443 – Julho de 2015 – Informativo da Sociedade Paulista de Radiologia e Diagnóstico por Imagem.

Referências
  1. American College of Radiology manual on contrast media. American College of Radiology, 9th ed., 2013.
  2. Kubik-Huch, RA et al. Gadopentetato Dimeglumine Excretion into Human Breast Milk during Lactation. Radiology 2000, 216: 555-558.
  3. Cova MA et al. Radiological contrast media in the breastfeeding woman: a position paper of Italian Society of Radiology (SIRM), the Italian Society of Pediatrics (SIP), the Italian Society of Neonatology (SIN) and the Task Force on Breastfeeding, Ministry of Health, Italy. Eur Radiol 2014; 24: 2012-2022.
  4. Schmiedl U et al. Excretion of gadopentate dimeglumine in human breast milk: case report. Am J Roentgenol 1988; 150:817-821.
  5. The Use of Magnetic Resonance Imaging in the Obsetric Patient. Society of Obstetric Gynecolo­ gists of Canada Clinical Paractice Guideline. 2014.
  6. Immediate Hipersensitivity Reactions to Gadolinium-based MR contrast media. Radiology; 264: n. 2; 2012.
  7. Frequency and severity of acute allergic-like reactions do Gad olinium-containing IV contrast media in children and adults. Am J Roentgenol; 189:1533-1538; 2007.
  8. Complications of colonoscopy. Guideline of American Society for Gastrointestinal Colonoscopy 2011.
  9. Geraci G. et al. Le complicanze dela fibrobroncoscopia. An­ nali Italiani di Chirurgia 2007; 78:183-192.
  10. Contrast Media Safety Issues and ESUR Guidelines. Europe­ an Society of Urologic Radiology. 3rd edition. 2014.
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